O Estado do Espírito Santo, com 45.597 km2, originalmente possuía quase 90% de sua superfície coberta por Mata Atlântica, sendo o restante coberto por brejos, restingas, manguezais, campos de altitudes e campos rupestres. Sua área está inserida no Corredor Central da Mata Atlântica, uma das ecorregiões que apresenta, por um lado, ainda uma enorme diversidade biológica e um alto grau de endemismo, o que reforça a necessidade de preservação de seus remanescentes; por outro, grande comprometimento ambiental, florestal e de uso e ocupação do solo em extensas áreas de seu território, principalmente na sua porção norte cujo processo de desertificação compromete consideravelmente os recursos hídricos da região e, assim, também toda a qualidade ambiental e de vida para suas comunidades.
Vê-se, por assim dizer, que o Espírito Santo não compõe os biomas de zonas árida e semiárida brasileira, mas sim, a sua maior parte da porção norte encontra-se em áreas vizinhas àquelas contíguas às semiáridas, denominadas subúmidas secas, todas classificadas como vulneráveis à desertificação resultantes de fatores como variações climáticas e atividades humanas, segundo o PAN Brasil – Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.
Nesse contexto, é fundamental reunir ações de cunho conservacionista às de promoção da qualidade de vida, de modo a vincular o sentido de pertencimento das sociedades humanas ao ambiente, numa perspectiva da bio-sócio-diversidade e da sustentabilidade para as atuais e futuras gerações, tecendo-se os saberes produzidos e acumulados às sabedorias de vida e aos valores éticos com o Planeta, com todas as formas de vida e particularmente com as crianças e adolescentes em situação de risco socioambiental.
O presente projeto tem sua origem pautada na violação e/ou não realização dos direitos de crianças e de adolescentes e na frágil participação da maioria das organizações da sociedade civil do Estado do Espírito Santo frente à problemática apresentada, incluindo a relação sócioambiental das comunidades locais e da sociedade em geral com a ‘criação’ de seus filhos e filhas, ou seja, aborda-se este tema porque, como já foi dito anteriormente, embora as crianças e adolescentes tenham seus direitos garantidos por lei, tanto na Constituição Brasileira quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente, esses direitos continuam sendo amplamente descumpridos. Alto índice de mortalidade infantil, a falta de acesso ao saneamento básico - com destaque para água potável - e a carência na educação são indicadores que revelam níveis desta pobreza.
Os índices são ainda mais alarmantes nos municípios que compõem o semi-árido capixaba. Segundo o Censo 2000 do IBGE, nos 29 municípios abrangidos pelo projeto 32-73% das crianças e adolescentes que vivem nos municípios do semi-árido capixaba são afetados pela pobreza (viviam em famílias de renda per capita inferior a meio salário mínimo).
Esses níveis de pobreza estão correlacionados com outras violações de direito que enfrentam as crianças e os adolescentes, dentre as quais os elevados índices de sub-registro civil de nascimento. No Espírito Santo, segundo dados do IBGE, em 2004, o percentual de sub-registro de nascimento varia entre 0,6-25% em alguns municípios. A desinformação sobre a importância, a obrigatoriedade e a gratuidade do registro civil, e a dificuldade de acesso aos cartórios são algumas das principais causas dos elevados índices de sub-registro.
Dentre as causas das diversas violações aos direitos infanto-juvenis pode-se destacar, ainda, a dificuldade de acesso a informações sobre mecanismos de exigibilidade de direitos e a pouca articulação entre sociedade civil organizada e poder público no que diz respeito à formulação e implementação de políticas públicas de proteção integral às crianças e adolescentes.
Iniciativas, como o Selo UNICEF Município Aprovado: Um Mundo para a Criança e o Adolescente do Semi-Árido, têm contribuído para alteração do quadro de violação e/ou não realização dos direitos das crianças e adolescentes. Por outro lado, o Ipema, em suas diversas atuações e projetos trabalha em prol do meio ambiente, numa perspectiva social e de desenvolvimento sustentável, ressaltando a magnitude da dimensão antrópica na questão ambiental e da responsabilidade da sociedade com a biosfera e com o outro, com ênfase para as crianças e adolescentes em suas interrelações de Educação Ambiental.
A parceria do UNICEF com o IPEMA desde a primeira edição e, institucionalmente, na segunda edição, denotam que essas iniciativas, de maneira integrada, são focos da proposta de intervenção deste projeto que tem por objetivo maior contribuir para que crianças e adolescentes sejam respeitados enquanto sujeitos de direitos, a partir, sobretudo, da concretização de políticas públicas que garantam permanentemente a melhoria da qualidade da vida das mesmas, de suas famílias e comunidade.
No que concerne ao Selo UNICEF, sua principal importância consiste no fato do mesmo colocar a infância e a adolescência da região semi-árida brasileira como prioridade nacional, no centro da agenda política dos Estados e Municípios da região. O Selo consiste num conjunto de iniciativas com o objetivo de “promover políticas públicas integradas que assegurem o desenvolvimento humano sustentável no semi-árido brasileiro”, se concretizando num reconhecimento público aos municípios que atingirem os resultados propostos.
Sendo assim, com o objetivo de apoiar o UNICEF na consolidação do Selo como tecnologia social de promoção e garantia dos direitos infanto-juvenis, propõe-se, para o decorrer deste ano, a atuação do Ipema a como agente de mobilização com os municípios capixabas do semiárido e de seu entorno imediato, conforme apresentação no Plano de Atividades. Nesta perspectiva, este projeto pretende através de estratégias diferenciadas:
- Desenvolver nos sujeitos de direitos, crianças e adolescentes, a capacidade de realizar leituras de mundo e reescrita de suas próprias histórias. Para isso propõe desenvolver nos educadores/leitores a capacidade de se apropriarem cada vez mais da proposta de atuação;
- Instigar o poder público a assumir uma Política Pública que garanta a universalização dos direitos de crianças e adolescentes;
- Mobilizar a família, a comunidade e a sociedade, especialmente a sociedade civil organizada, para se engajar no processo de mobilização pela garantia de direitos e pela transformação da sociedade.