Educação Alimentar não-formal (O Movimento Escoteiro)

Advirto a possibilidade de que esta seja uma das entradas que sai de mim, dessas que não têm roteiro, como motivação universitária, mas você sabe que você vai ficar satisfeito com o resultado saia o que sair, porque você vai estar feliz consigo mesmo.

Esta entrada fala de Educação Alimentar e para a Saúde, mas não aquela que é feita no horário de aulas nos institutos, não é essa que consiste em horas livres de classe em que se recorre à conversa ou palavreado, mas de intervenções mais complexas: no âmbito extraescolar, onde as protagonistas são a infância e a adolescência, e muito muito muito transversais.

Espero que o coletivo de Nutricionistas-Nutricionistas e educadores consigam tirar utilidade a este post, talvez não seja para estabelecer uma intervenção nova e milagrosa, mas sim para entender melhor como se desenvolvem os hábitos das pessoas.

Folder de trabalho (8-11 anos)

Para introduzir o tema, eu vou ser muito ríspido com uma realidade que várias resenhas de Educação Alimentar mostraram, aqui e em outros países: As conversas diretas para as crianças e adolescentes, servem para muito pouco. Espero que os fãs de bate-papo e quadro de não-me medo; ainda que estas intervenções possam ter um claro impacto no conhecimento, aquelas que realmente são transformadoras de hábitos saudáveis são as “multicomponent interventions” escola + família + extraescolar.

As palestras não são transformadoras, como não o é a informação por si só. Porque tão inútil é dizer “come maçãs”, que vive em uma casa em que não há prato; como induzir a familia que imponha aos jovens hábitos distantes de sua realidade. Resultado: FRACASSO.

Não trago nesta postagem nenhuma fórmula mágica, nem solução educacional para todos os problemas de saúde, mas sim que quero refletir com quem leia agora estas linhas.

Eu tenho que explicar o porquê de falar do método escoteiro: último e doloroso para mim, aponto que as pessoas que fazem parte dos grupos de escotismo, realizadas de forma contínua durante o ano de muitas atividades no meio natural e urbano, centradas em diferentes âmbitos educativos e, partindo de suas preocupações e interesses.

Isso é interessante para a saúde por dois motivos:
O fundo: A Educação para a Saúde é um domínio de si mesmo, onde se ensina alimentação saudável, prevenção de drogodependencias, educação afetivo-sexual, saúde mental, higiene e hábitos saudáveis.
O meio: A metodologia envolve muitas saídas e atividades bastante movimentadas e em contato com outras pessoas de sua idade, em um ambiente de voluntariado e responsabilidade social.

Isso que tão lindo é, sobre o papel e na teoria, tem mais repercussão prática do que parece.
Desde que eu comecei a gostar disso a Saúde Pública e a Nutrição Comunitária, diagnosticado institivamente a ojímetro o peso das pessoas de nossos grupos; sempre observava que havia menos prevalência de excesso de peso/obesidade do que na população normal (os jovens, os adultos se me saíam da norma). Eu pensei que poderia ser por acaso, que não seria representativo, que não passaria em mais grupos… o bichinho me aproximou de consultar outros grupos que trabalham com a Educação para a Saúde em seus planos de ensino, inclusive de outras comunidades, e as proporções se mantiveram.

É mais, não só encontrávamos melhor peso e melhor estado nutricional, também melhores hábitos alimentares, menos horas em frente ao computador/TV e, além disso, mais tempo de esporte.

Agora, a pergunta pesquisadora era clara: “Obviamente, é um coletivo enviesado, os meninos e meninas de um grupo escoteiro, serão diferentes do resto em mais coisas” Correto

Obviamente, não se pode fazer um ensaio clínico aleatório, duplo-cego com isso, mas sim que nós começamos a valorizar os hábitos de seus amigos de classe e de seu ambiente imediato, ao que parece, a única variável que temos de diferente nesta ocasião é “ser escoteiro”.

Os resultados foram bons, de fato acho que tiveram mais impacto no meu ambiente profissional que meu ambiente de scout. Provavelmente por minha culpa.
Sempre me deu vergonha de chegar a outros chefes desconhecidos e mostrar isso, (pode ser que alguns que estão lendo pela primeira vez); sei que a nossa construção do pensamento nos levaria diretamente a pensar nestas pessoas com excesso de peso de nossos grupos, nessas vezes que se levam comida pouco adequada aos campos, esses dias de excursão que não fazemos a melhor dieta possível… A mim também me vêm à cabeça momentos em que as famílias e os educadores não dão o melhor exemplo. E o quão fácil é pensar “o que é, Mas como eles vão estar mais saudáveis?!”

Há que ser claramente consciente de que estes resultados não se devem exclusivamente às sessões de Educação para a Saúde, nem para os menus dos acampamentos. A causa não é apenas essa.

Ao igual que a nossa atitude ao volante não é apenas o resultado de campanhas de Educação no Trânsito, mas de uma multidão de componentes de nosso comportamento. Como nossa atitude frente ao impacto ambiental não é apenas fruto de nossas oficinas e atividades.

As transformações na nossa maneira de ver o mundo não se devem apenas às sessões específicas que nos deram sobre o assunto. Estamos falando de uma educação muito transversal. O escotismo procura fazer “melhores cidadãos” pessoas mais críticas, mais participativas, mais úteis cívicamente.

* Uma intervenção complejísima, cerca de 25 reuniões semanais por ano, uma média de 4 saídas e acampamentos ao ar livre, atividade física, cerca de 9% das refeições de um ano com os seus professores e colegas. São 800h ao ano de convivência recebendo educação em valores, a pluralidade e no espírito crítico!
Se fomenta o exercício (não só de boca, mas que se faz), se não fosse por este tipo de atividades extra-classe, alguns jovens não teriam cozido nunca, nem teriam lavagem nunca um prato ou uma vasilha, é possível que não tivessem recorrido a um mercado comprar nem se teriam preocupado com a possibilidade de preencher um cantil em sua mochila. Se não fosse por nossos caminhos, os nossos jogos, nossos acampamentos quanto exercício restaríamos para as crianças?

Porventura nos surpreso de saber que um alto percentual de escoteiros fazem parte de espaços de participação cidadã? Ou será que têm menos acidentes de trânsito? Ou será que reciclamos mais? O Que nós somos mais críticos?

Os resultados deste grupo são melhores que o do resto dos espanhóis.
Eu me pergunto POR QUE NOS DEVERIA SURPREENDER?

Mas… E se começamos a ter consciência das características de uma intervenção transformadora?
E se nos damos conta de que as conversas só, não servem para nada?
E se vemos que um educador não formal é capaz de detectar problemas de saúde que não estão em casa ou na escola?
E se um educador extraescolar é a peça chave para motivar os jovens para uma mudança em sua atitude?

Sobre os estudos nos mostram que todos os ambientes devem estar coordenados para conseguir mais força transformadora. Da próxima vez que atuaremos, seja como educadores ou profissionais de saúde, lembre-se quão complexas são as nossas ações; não desistir nossas reuniões/sessões de nada, integrémoslas em um todo.

A transformação que algumas pessoas sofrem dia-a-dia, 30 milhões de pessoas em todo o mundo, este ambiente que nos faz pessoas melhores e lutar por nossas aventuras e projetos. Você pode lutar pelo que se quer, até mesmo misturar suas paixões e sonhar que a sua tese seja o que você quiser.

Pode ser que não seja um especialista da Educação Alimentar, mas sim que eu sou apaixonado por ela. Sou inocente de fazer isso, a culpa têm os educadores, professores, psicólogos, psicopedagoga e professores que me acompanharam durante toda a minha vida.

Parte dos voluntários “culpados”

Referências:

Sanchez-Garcia, A. (2012) “Educação nutricional como a promoção de hábitos alimentares saudáveis e prevenção da obesidade” Nutr Hosp. 2012; 27(supl 1): 38-9.
Sanchez-Garcia, A. (2012) “Avaliação do impacto das intervenções isoladas de educação nutricional na infância e adolescência” Nutr. Clin. Diet. Hosp. 2012; 32(supl. 1): 54.
Sanchez-Garcia, A. (2012) “Características das intervenções de educação nutricional que predispõem à mudança de hábitos alimentares de jovens e adolescentes”, Nutr. Clin. Diet. Hosp. 2012; 32(supl. 1): 54.
Sanchez-Garcia, A. (2011) “o Envolvimento da educação nutricional nos hábitos de consumo alimentar e o estado nutricional” Nutr. Clin. Diet. Hosp. 2011; 31(supl. 1): 72.
Esta entrada participa no I Carnaval de Nutrição que organiza este mesmo blog.

Os desenhos correspondem ao material gráfico da Série Metodológica Federal de ASDE-Escoteiros de Portugal 2009, pode consultar as suas publicações aqui.

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